As quartas de final da Liga Nacional colocam oito equipes diante de séries que, em maior ou menor medida, carregam uma história própria. Há o líder que enfrenta justamente o único time que conseguiu vencê-lo em casa, a revanche de uma final recente, um clássico gaúcho com 44 capítulos na competição e uma rivalidade paulista que já decidiu duas vezes o título nacional.
Em uma fase de ida e volta, a campanha pesa. Mando de quadra e torcida pesam. História também. Mas nenhum desses fatores, isoladamente, garante classificação. E é justamente aí que estão as principais armadilhas dos quatro confrontos.
JEC Futsal x Campo Mourão: o favorito tem uma conta a acertar

Se fosse necessário escolher um favorito absoluto entre os quatro confrontos, o Joinville provavelmente seria o candidato mais natural. Líder da primeira fase, com 33 pontos, melhor ataque da competição, com 55 gols, e aproveitamento de 87,5% em casa, o JEC chega às quartas com todos os argumentos estatísticos para entrar na série com o status de favorito. Mas existe um detalhe que muda completamente essa conversa, o Campo Mourão já venceu o JEC Futsal em Joinville.
E não foi uma vitória qualquer. O time paranaense perdia por 4 a 0 no intervalo e conseguiu uma virada impressionante para 7 a 5, impondo ao Tricolor sua única derrota como mandante na temporada. Exatamente, na temporada, considerando todas as competições, não apenas a LNF. É um resultado que não pode ser tratado apenas como um capítulo isolado da primeira fase. Ele prova que o Campo Mourão tem capacidade para explorar as fragilidades do líder.
O time paranaense chega de uma classificação e de um título que reforçam sua confiança. Depois do empate sem gols fora de casa, venceu o Cascavel por 3 a 2, com o gol da classificação nos minutos finais para carimbar a vaga às quartas. Além disso, o “Carneirão” acabou de comemorar o título da Copa Sul depois de eliminar o Jaraguá na semifinal e vencer a Chapecoense de virada na final.
O JEC, por outro lado, vive uma situação curiosa. A campanha da LNF é de líder, mas o time também está envolvido na final da Copa LNF. São duas competições em fases decisivas, o que aumenta a carga física e mental justamente no momento mais importante do calendário. Além disso, o Tricolor também comemorou um título recentemente, o inédito da Copa do Brasil.
O favoritismo é joinvilense. O JEC tem melhor campanha, melhor ataque e o direito de decidir em casa. A questão é não transformar esses números em excesso de confiança.
Palpite: JEC classificado, mas em uma série mais equilibrada do que a tabela sugere. O Campo Mourão tem condições de vencer um dos jogos e transformar a eliminatória em uma disputa de detalhes.
Jaraguá x Praia Clube: passado favorece o atual campeão, mas regularidade na temporada está do lado mineiro

É impossível falar de Jaraguá e Praia Clube sem voltar a 2024. A final daquele ano permanece como uma das referências desse confronto. Empate em 2 a 2 no tempo normal, 1 a 1 na prorrogação e título decidido nos pênaltis, com o Jaraguá levando a melhor após Nicolas defender a sexta cobrança do Praia.
Naquela noite, em Carlos Barbosa, o Jaraguá conquistou o quinto título de sua história. Hoje, já são seis, ou seja, a maior coleção de troféus da LNF. Mas o peso histórico não é suficiente para colocar o Jaraguá automaticamente à frente desta vez.
O Praia fez uma primeira fase muito consistente. Terminou em quarto, marcou 51 gols e perdeu apenas duas vezes. E o mais importante nessa análise é que venceu o confronto direto contra o Jaraguá por 3 a 2, em Uberlândia.
O Jaraguá, é verdade, respondeu nas oitavas. Passou pelo Tubarão com duas vitórias, 1 a 0 fora e 4 a 1 em casa. É um time que conhece profundamente o ambiente de mata-mata e tem experiência para lidar com jogos de enorme pressão.
Mas há uma diferença importante em relação à final de 2024. Agora o Praia chega sem o peso de ser apenas o desafiante. A campanha mostra uma equipe suficientemente madura para olhar para o Jaraguá de igual para igual.
Meu cenário para essa série é de equilíbrio extremo. O Jaraguá tem tradição, camisa e experiência, mas vive uma temporada inconsistente. O Praia tem números recentes e um ataque que pode fazer a diferença.
Palpite: leve vantagem para o Praia, justamente pela campanha mais consistente e pelo desempenho ofensivo. É a série em que vejo maior possibilidade de uma classificação decidida apenas nos minutos finais do segundo jogo.
ACBF x Atlântico: quando a camisa pesa, mas o momento também

Há confrontos em que o peso da camisa e o histórico são tão marcantes que quase viram um personagem. ACBF e Atlântico é esse tipo de confronto.
São 44 encontros pela LNF desde 2002, com 19 vitórias da ACBF, 16 do Atlântico e nove empates. Não é apenas um clássico regional, é um confronto entre dois clubes que ajudaram a construir a história do futsal brasileiro.
A ACBF tem cinco títulos da Liga Nacional, segunda maior marca da competição. O Atlântico tem um, conquistado em 2023, na primeira edição em que tivemos final única e com uma virada épica para cima do JEC Futsal (quem não lembra daqueles nove segundos?). E há uma lembrança particularmente significativa. Em 2004, os dois se enfrentaram em uma semifinal decidida em três partidas, com a ACBF avançando para depois conquistar o título. Só que tradição não joga sozinha.
O Atlântico fez uma primeira fase superior. Terminou em segundo lugar, venceu dez dos 15 jogos e, no encontro entre os dois nesta temporada, ganhou por 2 a 1 justamente em Carlos Barbosa.
A ACBF terminou em sétimo, mas chega com uma classificação convincente nas pré-quartas. Eliminou o Umuarama vencendo os dois jogos, por 4 a 1 fora de casa e 2 a 1 diante do seu torcedor.
É aí que está a principal questão do confronto. O Atlântico tem a campanha que justifica o favoritismo, enquanto a ACBF tem a experiência que pode fazer a diferença quando a série apertar. A ACBF, aliás, conquistou nesta temporada nada mais, nada menos, do que a tão sonhada Glória Eterna da Libertadores.
Minha aposta, porém, é no momento. O Atlântico parece chegar mais pronto para essa fase. Não apenas pelos números, mas pela capacidade demonstrada ao longo da primeira fase.
Palpite: Atlântico classificado. Acredito em uma série muito física e de placares apertados, mas vejo o time de Erechim com ligeira vantagem para avançar no Caldeirão do Galo.
Magnus x Corinthians: o clássico em que o passado pode enganar
Magnus e Corinthians têm uma história que dispensa apresentações. Foram duas finais de Liga Nacional entre eles. O Corinthians foi campeão em 2016, e o Magnus levou o título em 2020 com uma campanha invicta.
A rivalidade também se estendeu ao Campeonato Paulista. Ou seja, bagagem e rivalidade não faltam quando eles se enfrentam. Mas, olhando exclusivamente para 2026, a balança pende para o Magnus.
O time terminou a primeira fase em terceiro e teve a melhor defesa da competição, com apenas 25 gols sofridos. O Corinthians ficou em 11º e precisou passar pelas pré-quartas para chegar até aqui.
Só que o Corinthians não chegou às quartas por acaso. Eliminou o Pato com empate em São Paulo e vitória por 2 a 0 em plena Arena Cláudio Petrycoski. É o tipo de classificação que pode mudar o ambiente de uma equipe em mata-mata. E existe outro detalhe incômodo para o Magnus: o Corinthians já o venceu nesta temporada, por 2 a 0, na segunda rodada.
Ainda assim, vejo o Magnus como favorito. A campanha foi muito superior, a defesa oferece uma margem de segurança importante e a equipe terá a vantagem de decidir em casa.
O Corinthians tem tradição suficiente para transformar a série em uma verdadeira armadilha. Mas, este é um dos confrontos que apresentam maior diferença entre as campanhas das equipes.
Palpite: Magnus classificado. Não imagino uma série tranquila, mas acredito que a consistência defensiva e a vantagem de decidir em casa devem prevalecer.
Quatro séries e quatro maneiras de chegar ao título
As quartas de final têm uma característica interessante, a de que nenhum confronto parece completamente desenhado.
O JEC Futsal é o favorito diante do Campo Mourão, mas já descobriu que o adversário sabe vencê-lo em casa. O Jaraguá tem a história a seu favor contra o Praia, mas os números da temporada e a consistência mineira apontam para um confronto muito mais equilibrado. O Atlântico chega melhor que a ACBF, mas enfrenta o atual campeão continental e uma das camisas mais pesadas da competição. E o Magnus tem vantagem clara sobre o Corinthians na campanha, mas encara um rival que já o derrotou neste ano.
Se os favoritos confirmarem suas campanhas, a semifinal poderá reunir JEC, Praia, Atlântico e Magnus. Mas mata-mata não costuma respeitar a lógica da tabela.
E é justamente isso que torna o futsal e essas quartas tão interessantes. Há argumentos suficientes para apontar favoritos, mas também há história e resultados recentes suficientes para colocar todos eles sob suspeita.
