Família de revelação do Tricolor vê de perto o filho brilhar nos playoffs da Liga Nacional
Há quem passe a semana estudando números, analisando adversários, projetando os embates individuais e tentando prever o que vai acontecer dentro de uma quadra. Antônio Marcos Jacinto tinha outro método na tarde do dia 10 de outubro. Antes de o JEC Futsal entrar em quadra contra o Campo Mourão, pelas quartas de final da Liga Nacional, ele mandou um áudio para o filho Guilherme, o Gui, com uma previsão bem especial e específica. O pai foi taxativo e não hesitou ao cravar que seriam dois gols do camisa 6 naquela tarde.
Ao lado de Cleide, mãe do jogador, o pai de Gui saiu de Altônia e eles viajaram cerca de 200 quilômetros até Campo Mourão, tudo para acompanhar de perto o primeiro jogo do mata-mata. O primeiro do Tricolor nesta Liga Nacional e o primeiro capítulo do filho em um playoff de LNF. A família saiu da cidade vizinha para estar ali, na arquibancada, torcendo por um garoto que, aos 21 anos, começa a escrever os primeiros capítulos de uma trajetória no futsal adulto.
O recado veio antes da bola rolar. E o roteiro, daqueles que nem o mais otimista dos torcedores conseguiria escrever com tanta precisão, foi cumprido. Gui marcou duas vezes na vitória do Tricolor por 3 a 1. Abriu o placar no primeiro tempo e voltou a balançar a rede logo no início da etapa final. E antes ainda deixou os pais e a torcida joinvilense apreensiva ao sair sentindo dores no joelho. Apesar do susto, nada o impediu de voltar para o segundo tempo e comemorar novamente.

O pai acertou em cheio. Depois do apito final e da vitória na bagagem, a previsão virou motivo de brincadeira, mas também de uma emoção difícil de traduzir em palavras. “Guilherme, você vai fazer dois gols hoje”, havia dito Antônio Marcos no áudio enviado ao filho. Mais tarde, ao falar sobre o que tinha acabado de presenciar, a voz de quem viu o palpite se transformar em realidade carregava a alegria de um pai que acompanha cada passo dessa caminhada. “Eu falei pra ele que ele faria dois”, contou.
Para entender o tamanho daquela tarde, porém, é preciso voltar um pouco no tempo. Natural de Altônia, no Paraná, Gui chegou ao Joinville ainda nas categorias de base. Cresceu dentro do clube, passou pelas etapas de formação, dividiu casa com outros atletas e viveu todo o sacrifício de estar longe da família para perseguir um sonho em um dos maiores clubes do país.
No ano passado, conquistou a Talentos LNF, sentiu o gostinho do título nacional e já começava a aparecer em algumas partidas do time adulto. Era apenas uma pequena amostra do que estava por vir.
Nesta temporada, o primeiro ano como profissional trouxe desafios maiores e oportunidades à altura. O ala canhoto já soma 17 gols em 39 jogos, participou até aqui das conquistas da Recopa Santa Catarina e da Copa do Brasil e ainda tem pela frente três títulos em disputa, a própria Liga Nacional, a Copa LNF e o Campeonato Catarinense. Números e títulos que ajudam a dimensionar a temporada de um jogador que ainda está no começo da carreira.
E quis o destino que a responsabilidade dele aumentasse ao longo do caminho depois da lesão de quem já é referência. Com a lesão de Robinho, um dos nomes mais experientes do elenco, aos 43 anos, Gui ganhou ainda mais espaço. E respondeu dentro de quadra. Cresceu, assumiu protagonismo e mostrou que a juventude não impede ninguém de dar um passo à frente quando a equipe precisa.

Contra o Campo Mourão, o cenário era de mata-mata, com a pressão própria de uma disputa que não permite distrações, na casa do adversário e com o alerta da derrota para o time paranaense na primeira fase. Líder na classificação, o JEC Futsal precisava construir um bom resultado fora de casa para ampliar a vantagem no jogo de volta. Gui fez a parte dele, uma, duas vezes.
Mas, enquanto os gols ajudavam o JEC Futsal a largar na frente em busca da vaga na semifinal, havia outra vitória acontecendo na arquibancada da Arena UTFPR. A de dois pais que fizeram o possível para estar perto do filho. Cleide contou que a família se organiza como pode, pede liberação no trabalho e encara a viagem para acompanhar os jogos. Já foi assim na final da Copa do Brasil, quando os pais viajaram ainda mais, até Joinville, para acompanhar a conquista de pertinho. E os sacrifícios são feitos não apenas para torcer por um resultado positivo. É estar presente e testemunhar de perto o crescimento de um menino que precisou superar dificuldades até chegar aos playoffs da principal competição nacional de futsal.
A mãe fala com orgulho do caminho percorrido, dos tempos na casa dos atletas e de tudo o que o filho enfrentou para chegar até aqui. Para ela, vê-lo defendendo uma equipe do tamanho do Joinville, disputando uma Liga Nacional e marcando dois gols em um jogo decisivo é motivo de gratidão.

Para Gui, a tarde também teve um significado particular. Era o primeiro playoff de Liga Nacional da carreira, no primeiro ano como adulto. Depois de marcar duas vezes, ele não escondeu a felicidade, mas mostrou também que, apesar de jovem, a maturidade está presente e sabe que esse foi apenas o primeiro capítulo do confronto.
A maturidade é exatamente isso, saber aproveitar o momento sem perder de vista o que ainda precisa ser feito.
O JEC Futsal volta à quadra pela Liga Nacional no dia 22 de outubro, diante da torcida, com a vantagem construída no Paraná. Um empate basta para garantir a vaga na semifinal. É o cenário que o time desejava trazer para casa depois do primeiro duelo, afinal, dentro do Centreventos Cau Hansen, ninguém venceu o JEC em 2026.
Para Antônio Marcos e Cleide, no entanto, a viagem já entregou uma lembrança que não depende do resultado da volta. Eles viram o filho marcar duas vezes, como o pai havia previsto. Viram o garoto de Altônia, que cresceu nas categorias de base do JEC, assumir seu espaço entre os adultos e brilhar justamente quando a responsabilidade aumenta.
No esporte, nem todo palpite vira história e nem toda história cabe em uma estatística. Mas, no JEC Futsal cada jogador carrega uma trajetória que forma a história de um time que, como fala a torcida, é sentimento que jamais acabará.
E, naquela tarde, em Campo Mourão, um pai mandou um áudio, uma mãe acompanhou o filho de perto e um garoto de 21 anos marcou dois gols. O Tricolor voltou para casa com a vantagem nas quartas de final e a família Jacinto voltou para Altônia com algo que nenhum placar consegue traduzir e dimensionar, a alegria de ter estado lá, exatamente quando e onde o filho precisava que eles estivessem.
