Salários atrasados, acordos com jogadores em atraso, pendências de direitos de imagem, contas de água, gás e energia vencidas e parcelas da recuperação judicial sem pagamento desde janeiro. Esse é o cenário encontrado pela equipe de transição do Joinville Esporte Clube após a saída de Darthanhan de Oliveira, segundo apuração do Esporte Joinville. No próximo sábado (10), vence mais uma folha salarial, ampliando a pressão sobre um clube com custo mensal próximo de R$ 400 mil e sem recursos suficientes para cumprir suas obrigações.
Foi diante desse quadro que conselheiros se reuniram na terça-feira (6), um dia depois da saída efetiva do presidente, e definiram o Pacto pelo JEC. O plano reúne 15 ações emergenciais para arrecadar dinheiro, obter insumos e reduzir despesas durante a transição. A mobilização busca garantir condições básicas de funcionamento enquanto o clube prepara a eleição da nova diretoria e segue na disputa da Copa Santa Catarina.
Segundo informações apuradas pelo Esporte Joinville, a equipe de transição encontrou um cenário em que o clube contava com apenas R$ 7 mil provenientes de um patrocinador para o fluxo de caixa, além de R$ 5,8 mil em permuta de alimentação com um supermercado. A permuta ajuda a suprir parte da alimentação, mas não representa dinheiro disponível para pagar transporte, hospedagem ou contas de energia.
O quadro explica a urgência da reunião. Enquanto a eleição não acontece, o futebol segue com treinamentos, jogos e despesas diárias. O JEC precisa alimentar o elenco, manter a estrutura funcionando e viajar para continuar disputando a Copa Santa Catarina, competição pela qual busca uma vaga na Série D de 2027.
Conselheiros levantam cerca de R$ 20 mil para a viagem
A primeira necessidade era garantir o deslocamento para enfrentar o Santa Catarina, no sábado (10), às 17h, no estádio Alfredo João Krieck, em Rio do Sul. A data, o horário e o local estão confirmados na tabela da Federação Catarinense de Futebol e na divulgação do clube mandante.
De acordo com a apuração do EJ, o Joinville não tinha recursos suficientes para custear a viagem. Um grupo de conselheiros conseguiu levantar cerca de R$ 20 mil para ônibus, hotel e alimentação da delegação. O valor atende a essa necessidade específica, mas não resolve as demais obrigações do clube.
Nova folha vence no dia 10, com salários e acordos anteriores em atraso
Segundo apuração do Esporte Joinville, há salários atrasados de profissionais que permaneceram no clube. Também existem pagamentos pendentes de renegociações firmadas com jogadores, além de valores de direitos de imagem em aberto. Essas obrigações se somam à nova folha salarial, com vencimento em 10 de outubro.
A transição precisa, portanto, buscar recursos tanto para compromissos já vencidos quanto para os próximos pagamentos. O valor da folha que vence no dia 10, o montante dos atrasos salariais e os totais devidos em renegociações e direitos de imagem não foram informados. O custo operacional estimado em quase R$ 400 mil por mês abrange o funcionamento do clube e não deve ser confundido com o valor da folha salarial.
Água, gás e energia acumulam pendências
A falta de recursos também alcança despesas básicas. Conforme a apuração do EJ, há contas de água e gás em atraso. Na energia elétrica, cuja despesa média é de aproximadamente R$ 11 mil por mês, o atraso está entrando no quarto mês. Os R$ 11 mil correspondem à média mensal, não ao total da dívida de energia.
Os valores acumulados dessas contas não foram informados. Alimentação, fornecimento de insumos e manutenção da estrutura seguem exigindo recursos, além do dinheiro necessário para deslocar a equipe aos jogos. O montante levantado para a viagem atende a um compromisso específico e não representa a regularização dessas pendências.
Parcelas da recuperação judicial não são pagas desde janeiro
O quadro inclui ainda os compromissos da recuperação judicial. Segundo apuração do Esporte Joinville, as parcelas mensais não são pagas desde janeiro de 2026. O total atualizado em aberto e o valor de cada prestação não foram informados.
Esses atrasos se somam às obrigações com profissionais, jogadores e fornecedores. A gestão interina recebe, assim, duas demandas simultâneas: financiar a rotina do futebol e encaminhar as pendências acumuladas antes da transição. A arrecadação emergencial é necessária para manter a operação, mas, por si só, não soluciona o conjunto das dívidas.
A disputa em campo também passa pela sobrevivência financeira
A falta de caixa ocorre quando o JEC ainda tem um objetivo esportivo importante pela frente. A Copa Santa Catarina oferece uma vaga na Copa do Brasil e outra na Série D do Campeonato Brasileiro, ambas para 2027, conforme divulgado pela FCF. Para o Joinville, que busca assegurar sua presença na quarta divisão nacional, continuar competitivo exige também condições para cumprir os compromissos fora de campo.
Por isso, a mobilização tem caráter de curto prazo. O custeio da viagem permite atender ao próximo jogo, enquanto o pacote de ações busca criar outras entradas de receita e diminuir despesas que continuam vencendo. A eleição da nova diretoria não suspende essas obrigações.
Transição tem eleição em 23 de outubro e chapas até sexta-feira
A renúncia de Darthanhan de Oliveira foi efetivada na segunda-feira (5). O vice-presidente Derian Campos já havia renunciado em agosto. Com os dois cargos vagos, Roberto Pugliese Jr., presidente do Conselho Deliberativo, assumiu interinamente a gestão, conforme a Resolução nº 05/2026.
O próprio documento oficial reconhece as dificuldades financeiras, administrativas e esportivas enfrentadas pelo clube. É nesse cenário que a gestão interina, apoiada pela Comissão de Transição e pela mobilização dos conselheiros, precisa manter o JEC funcionando até a posse dos eleitos.
As chapas com candidatos a presidente e vice devem ser registradas até sexta-feira, 9 de outubro, às 17h. A eleição e a posse estão previstas para 23 de outubro, na Arena Joinville, para completar o mandato em curso, até 2028. A votação ocorrerá das 11h às 20h. Se houver apenas uma chapa, a assembleia será por aclamação, às 19h em segunda chamada.
O calendário prevê ainda a análise das inscrições entre 9 e 12 de outubro, ajustes até o dia 14 e homologação das chapas aptas até o dia 15. Os associados têm até 19 de outubro para regularizar cadastro e contribuições junto ao clube, conforme a resolução.
Um movimento para reunir empresas, conselheiros e torcida
As propostas reunidas na terça-feira não representam receitas já asseguradas. O Pacto pelo JEC combina iniciativas em comercialização, organização, negociação e estudo, com a prioridade de responder às necessidades imediatas da transição.
O plano está dividido em seis frentes: receita comercial, aporte imediato de caixa, quadro de sócios, mobilização da torcida e de parceiros, captação de insumos e reconhecimento aos apoiadores. Algumas ações procuram colocar dinheiro no caixa; outras buscam substituir despesas por fornecimento de produtos e serviços.
A iniciativa é voluntária, parte dos conselheiros e ocorre em conjunto com o trabalho da Comissão de Transição. Todas as ações serão comunicadas sob o nome Pacto pelo JEC, com coordenação geral e governança do conselheiro Diogo Veiga. Os responsáveis de cada frente conduzirão sua execução.
Conheça as 15 ações do Pacto pelo JEC
1. Patrocínios na camisa até o fim da Copa Santa Catarina
O clube está comercializando cotas de patrocínio na camisa com validade até o encerramento de sua participação na Copa Santa Catarina. A oferta será pelo período restante da competição, e não apenas por uma partida. O plano trabalha com uma previsão de três a sete jogos, conforme o avanço da equipe.
A captação terá apoio de uma campanha no Instagram. Segundo o documento, os principais patrocinadores já concordaram com a iniciativa, e a proposta comercial não estabelece limite de marcas. O objetivo é ampliar a arrecadação aproveitando os compromissos esportivos que o JEC ainda tem pela frente.
2. Dia de uso da Arena Joinville para empresas
A proposta é oferecer a empresas um dia de utilização da Arena, com pagamento ao clube e uso previsto até 2027. O plano considera a instalação de gramado sintético como uma oportunidade para ampliar a frequência de atividades no estádio.
Antes de colocar o serviço à venda, porém, o grupo assumiu o compromisso de analisar o contrato de uso da Arena. Essa verificação deverá esclarecer quais espaços e atividades o JEC pode comercializar e sob quais condições. A medida, portanto, ainda está na etapa de análise contratual.
3. Produtos comemorativos dos 50 anos
Os conselheiros vão buscar fornecedores para uma linha de souvenirs alusivos ao cinquentenário do Joinville. A intenção é transformar a data em uma oportunidade de receita, com produtos voltados à torcida e ligados à história do clube.
A iniciativa está na fase de busca de parceiros. O documento não define quais produtos serão oferecidos, seus preços ou a data de início das vendas.
4. Doações e antecipação de mensalidades dos conselheiros
Os integrantes do Conselho estão sendo mobilizados para contribuir diretamente, por meio de doações ou da antecipação de suas mensalidades. Por depender da adesão dos próprios conselheiros, essa é apresentada no plano como a medida de execução mais rápida para colocar recursos no caixa.
O documento não informa quanto já foi arrecadado nem fixa uma meta para essa frente. O compromisso é iniciar a mobilização financeira dentro do próprio grupo que propõe as demais ações.
5. Negociação de aportes com os dois proponentes da SAF
Será aberta uma conversa com os dois proponentes da Sociedade Anônima do Futebol para discutir a antecipação de recursos durante o processo de definição da SAF. Pelo mecanismo proposto, ambos poderiam aportar dinheiro, e o grupo escolhido assumiria o compromisso de ressarcir o outro pelo valor investido.
A intenção é obter caixa antes da conclusão da negociação. Trata-se, no entanto, de uma proposta a ser discutida: o plano não registra aceite dos interessados, valores ou datas para eventuais depósitos.
6. Plantão de atendimento ao sócio na JEC Store
O conselheiro identificado no documento como Fernando se colocou à disposição para dar expediente na JEC Store até a eleição, com dedicação ao setor de sócios. A medida busca regularizar o atendimento e encaminhar pendências dos associados.
A disponibilidade está confirmada no plano, mas não há uma escala de dias e horários informada. A expectativa é que a aproximação com os sócios também ajude a recuperar e manter a receita recorrente do clube.
7. Negociação com a empresa de bilhetagem sobre valores em atraso
Está em negociação com a empresa de bilhetagem uma anistia relacionada aos valores de sócios em atraso, buscando destinar ao JEC o montante recuperado. Pelo desenho apresentado, a empresa voltaria a receber sobre os pagamentos recorrentes, conforme o contrato.
O objetivo é facilitar a regularização dos associados e recompor a base pagante. As condições ainda precisam ser concluídas. O documento não detalha descontos, critérios de adesão ou o alcance da anistia, portanto não há uma regra de quitação já anunciada aos sócios.
8. Evento para a torcida até o fim de outubro
Um evento voltado aos torcedores está em organização para ocorrer até o fim de outubro, com toda a arrecadação destinada ao JEC. A proposta combina a busca de recursos com a reaproximação entre o clube e sua torcida.
Data, local, programação e forma de participação não estão definidos no documento da reunião. A realização dependerá da conclusão dessa organização e da divulgação das informações ao público.
9. Dia da empada em favor do Joinville
Uma empadaria parceira trabalha na viabilização de um dia em que o valor consumido em uma empada específica será integralmente revertido ao clube. A proposta segue um modelo de mobilização por meio da venda de um produto, sem custo para o JEC.
A ação permitiria que torcedores e outros consumidores contribuíssem por meio de uma compra no estabelecimento. O nome da empadaria, a data e os detalhes da participação não constam no plano.
10. Show de prêmios
Os conselheiros estudam a viabilidade de promover um show de prêmios para arrecadar recursos. A análise inclui a organização, a obtenção dos prêmios e o enquadramento legal necessário para a realização.
A iniciativa ainda não está confirmada. Não foram definidos formato, data, premiação ou condições de participação.
11. Parcerias para fornecimento de medicamentos
O grupo busca apoio para suprir os medicamentos utilizados em jogos e treinamentos, atualmente custeados pelo clube. Conforme o documento, o conselheiro Jarede procura um fornecedor, enquanto Dudu conduz uma conversa com uma segunda empresa.
A proposta é obter doações ou parcerias que subsidiem essa demanda. A economia permitiria direcionar recursos para outras obrigações do JEC, mantendo o atendimento ao elenco.
12. Captação de proteínas para a alimentação
O conselheiro Juan está levantando o consumo diário de proteínas no clube. Com essa informação, o grupo pretende apresentar a fornecedores e apoiadores uma demanda concreta, com quantidades que permitam dimensionar a contribuição de cada parceiro.
Além de facilitar os pedidos de ajuda, o levantamento deverá permitir acompanhar quanto da necessidade foi atendido. O plano ainda não informa os volumes necessários nem os fornecedores envolvidos.
13. Arrecadação de alimentos em atividades esportivas
Está em análise a realização de campanhas de arrecadação de alimentos em jogos de futsal e na pelada da Rádio 89 FM. Os produtos seriam destinados ao abastecimento do dia a dia do centro de treinamento.
A ideia é aproveitar a presença de públicos já ligados ao esporte de Joinville para reduzir uma despesa recorrente do futebol. Datas, pontos de coleta e lista de alimentos ainda não foram apresentados.
14. Espaço nas rádios como contrapartida aos fornecedores
As rádios 89 FM e ND FM vão ceder espaço de mídia aos fornecedores que se dispuserem a atender às necessidades diárias do clube, conforme prevê o plano. A divulgação será uma contrapartida às empresas que contribuírem com a operação do JEC.
Essa frente dá suporte à busca de medicamentos, proteínas e alimentos. O documento não especifica a quantidade de inserções ou o período de exposição de cada parceiro.
15. Pix e painel de reconhecimento aos apoiadores
O movimento prevê a criação de uma chave Pix para contribuições de qualquer valor. Quem colaborar terá o nome registrado em um painel na Arena Joinville, identificado com a marca do Pacto pelo JEC e sem prazo definido de permanência.
A ação ainda será estruturada. A chave e as orientações para participar não foram informadas no documento. A proposta é reconhecer os apoiadores independentemente do valor doado.
Doação de carnes e possível parceria com o Mesa Brasil
Além das 15 ações, a reunião registrou duas iniciativas individuais. Um conselheiro assumiu o compromisso de doar R$ 2 mil em carnes até a semana seguinte ao encontro. Outro busca informações para uma possível parceria com o Mesa Brasil, por meio do instituto ligado ao JEC, em questões relacionadas à alimentação.
Essas iniciativas aparecem separadamente no plano. A doação é um compromisso registrado; a parceria com o Mesa Brasil ainda está na fase de levantamento de informações.
O que falta para transformar o plano em recursos
O Pacto pelo JEC reúne medidas com diferentes possibilidades de execução. As contribuições dos conselheiros e a venda de patrocínios são frentes de entrada direta de dinheiro. Já a obtenção de alimentos e medicamentos busca aliviar o caixa pela redução de despesas. Eventos, produtos comemorativos e o Pix ampliam as formas de participação da torcida.
Outras propostas têm dependências específicas: o uso comercial da Arena exige análise do contrato; os aportes dos proponentes da SAF dependem de negociação; a ação com sócios precisa de um acordo com a empresa de bilhetagem; e o show de prêmios passa por estudo de viabilidade e enquadramento legal.
O documento não apresenta uma meta global de arrecadação, valores consolidados de economia ou recursos já assegurados pelo conjunto das ações. Também deixa em aberto responsáveis e prazos de parte das iniciativas, que deverão ser preenchidos conforme o trabalho avançar.
O dinheiro levantado para a viagem atende a uma urgência, mas permanecem os salários, as renegociações com jogadores, os direitos de imagem, as contas de água, gás e energia e as parcelas da recuperação judicial em atraso. A esses compromissos se somam a nova folha do dia 10, a alimentação e os demais custos da operação. Até a eleição de 23 de outubro, o desafio da transição é transformar as propostas em recursos e economia efetiva, para que o clube mantenha sua rotina e siga em campo na disputa por calendário nacional em 2027.
Fonte: Apuração do Esporte Joinville; Pacto pelo JEC, plano da reunião de 6/10/2026; Resolução CD nº 05/2026 e edital eleitoral do JEC; Federação Catarinense de Futebol; Santa Catarina Clube.