Uma expulsão. Uma partida decisiva. O cronômetro correndo. E, de repente, o goleiro reserva deixa de ser reserva. Foi assim com Kleyton na Libertadores de 2025. Foi assim novamente na semifinal da Copa LNF deste ano, quando Davi Perim entrou depois da expulsão de Matheus e terminou como herói da classificação, ao defender duas cobranças na disputa por pênaltis contra o Camaquã.
Momentos diferentes, personagens diferentes, mas uma característica em comum. Quando acionados, os goleiros do JEC Futsal estão preparados.
Não é exatamente uma novidade. O clube construiu, ao longo dos anos, uma relação especial com a posição. Willian, ídolo tricolor, campeão mundial com a Seleção Brasileira e eleito o melhor goleiro do mundo, é um dos maiores exemplos dessa tradição. Hoje, a geração é outra, mas a história parece continuar sendo escrita debaixo das traves.
Matheus é titular do JEC Futsal e também da Seleção Brasileira principal. Kleyton, mesmo jovem, defende a seleção sub-20 e coleciona episódios importantes pelo clube. Davi Perim chegou neste ano e precisou de pouco tempo para viver uma das noites mais marcantes da carreira. E, enquanto isso, Nando e Henrique surgem na base e começam a construir o próprio caminho.

Para Ney Lopes, preparador de goleiros do JEC desde 2024, há um ponto que une todos eles.
“São goleiros com muito talento, porém com um só pensamento, de trabalhar para performar bem sempre que preciso. Isso faz com que eles realmente se destaquem, cada um dentro das suas características”, salienta.
A frase ajuda a explicar por que talvez seja simplista chamar o Tricolor apenas de “fábrica de goleiros”. O talento é importante, mas não parece ser suficiente. Existe um processo árduo por trás de cada atuação. E esse processo passa por uma rotina que o torcedor quase nunca vê.
O trabalho do preparador de goleiros vai muito além da tradicional sequência de chutes e defesas, essas que, às vezes, o torcedor mais atento até percebe durante os aquecimentos para os jogos.
No alto rendimento, Ney fala em disciplina, foco, repetição e, principalmente, em aproximar o treinamento das situações que o jogador encontrará durante uma partida.
“O alto rendimento cobra do atleta muito trabalho, disciplina, foco, disposição, repetições dentro de ações defensivas e ofensivas, trabalhos direcionados a cada ação, trabalhos que se aproximam muito da realidade do jogo”, explica.

Até mesmo uma defesa de pênalti, que pode parecer um momento de inspiração individual, começa muito antes da cobrança. Há estudo dos adversários, análise dos cobradores e treinamento de situações específicas. Mas nem sempre existe informação suficiente. E é aí que entra outra característica fundamental de um goleiro: a leitura do jogo.
Foi o que aconteceu com Davi Perim na classificação para a final da Copa LNF. “Analisamos os cobradores adversários, trabalhos, situações de defesas que serão exigidas no momento. Mas vai muito da leitura do goleiro também. Às vezes não conseguimos informações, aí entra a leitura do goleiro. Foi o que aconteceu com o Perim”, conta Ney.
É uma posição em que estar preparado para o inesperado faz parte da preparação. Kleyton e Davi tiveram de entrar em jogos decisivos justamente porque Matheus foi expulso. Não havia como prever exatamente quando a oportunidade surgiria. O que era possível fazer era preparar os dois para ela. E é exatamente o que Ney faz. Todos os dias.
“Eles trabalham muito para esses momentos. O trabalho é direcionado e aplicado da mesma maneira para todos, independente da idade. Assim, a confiança passada para todos se torna um ponto positivo. Essa é minha maneira de trabalhar: coloco muita cobrança dentro do trabalho diário. Isso, no meu modo de ver, facilita a performance de qualquer um deles”, destaca.
Talvez esteja aí uma das explicações para a sequência de goleiros que o JEC tem apresentado. A preparação não muda porque o atleta é reserva, jovem ou está diante de uma situação inesperada. A cobrança diária é a mesma.

E Ney conhece bem a pressão da posição. Antes de trabalhar na formação, ele foi goleiro. Aos 50 anos e com 33 de experiência em quadra, carrega para o trabalho a experiência de quem já viveu as cobranças, os acertos e os erros que fazem parte da posição.
“Facilita, na minha visão, a maneira de se cobrar, de corrigir, de aplicar os trabalhos diários. Hoje tenho 50 anos, 33 deles de carreira vivida dentro de uma quadra. Acredito que ajude e facilite muito”, diz.
Talvez por isso ele também tenha uma visão bastante particular sobre o goleiro. Para Ney, a posição tem uma responsabilidade diferente e o torcedor nem sempre leva em conta que, atrás de cada defesa, existe um atleta sujeito às mesmas falhas que qualquer outro.
“Me fascina a responsabilidade do goleiro. É uma posição diferente e com um grau de responsabilidade maior do que qualquer outra. O torcedor não enxerga que eles são humanos e podem errar e, às vezes, são injustiçados”, ressalta.
A experiência também parece ter tornado Ney mais exigente. Ele próprio já ocupou o lugar de destaque que hoje seus goleiros ocupam. E, para ele, chegar ao alto nível não significa parar de buscar evolução. Matheus é um exemplo. Titular da Seleção Brasileira, um dos grandes nomes da posição no país e no mundo, ainda precisa encontrar motivos para melhorar todos os dias.
“Para que o Matheus se mantenha nesse nível, tanto no clube como na Seleção Brasileira, ele precisa trabalhar muito diariamente, ter disciplina de trabalho e querer aprender a cada dia. Se isso não acontecer, ele joga seu nível para baixo e acaba deixando a desejar em ambos, clube e Seleção”, fala Ney.
A mesma lógica vale para quem está começando. Ney aponta que trabalhar com jovens é um desafio, mas que talento, postura, disciplina e disposição para aprender são fundamentais. E, quando fala de Nando, um dos goleiros que surgem na base do JEC Futsal, faz questão de destacar. “Ele tem tudo isso”, reforça.
O trabalho que começou com uma geração não termina em outra. A ideia é que o próximo goleiro esteja sempre sendo preparado antes mesmo de saber quando será chamado para dentro de quadra.

Ney também leva essa filosofia para a Seleção Brasileira de base, onde atua como treinador de goleiros. E entende que a oportunidade de chegar à Seleção é consequência da mesma rotina que estabelece no clube.
“Sou muito chato no meu dia a dia, cobro os atletas e também me cobro muito. Essa entrega diária no clube me fez chegar à Seleção Brasileira. Na Seleção, entrego da mesma maneira e com o mesmo profissionalismo que tenho no clube”, revela.
No fim, talvez seja justamente essa a parte menos visível da chamada “fábrica de goleiros” do JEC Futsal. O torcedor vê a defesa, vê o pênalti defendido, vê o goleiro entrar em uma semifinal e garantir a classificação. Vê Matheus vestir a camisa da Seleção.
O que ele não vê é a repetição de movimentos, o estudo dos adversários, a cobrança, a correção depois do erro e a preparação para uma oportunidade que pode aparecer a qualquer momento.
E Ney sabe, talvez melhor do que ninguém, que não existe espaço para comodismo.
“Vejo com muito orgulho o nível dos nossos goleiros, mas quero que melhore sempre. Fui da posição e sei que o outro dia para o goleiro tem que ser melhor ainda, sempre. Levei isso quando atuava e trago hoje ainda esse lema. Ter sido melhor goleiro do Brasil foi maravilhoso, mas me deixou mais exigente no meu dia a dia”, salienta.
O JEC Futsal realmente tem uma fábrica de goleiros, mas ela não funciona apenas porque o clube encontra bons talentos. Funciona porque esses talentos são colocados diariamente diante da responsabilidade de estarem prontos.
A defesa que decide uma partida pode durar menos de um segundo. A preparação para ela, não.
