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quarta-feira, 16 de setembro de 2026

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“Eu tive uma segunda chance”: Priscilla Castro, a mulher que decidiu fazer o Basquete Joinville renascer

Sobrinha da icônica árbitra Dóris Castro, a presidente do Basquete Joinville fala sobre a relação com o esporte, o desafio de reconstruir um clube histórico, o machismo e a violência doméstica que quase tirou sua vida

Priscilla Castro diante de uma coleção de bolas de basquete
Arquivo pessoal de Priscilla Castro Foto: Arquivo pessoal de Priscilla Castro

Aos 41 anos, Priscilla Castro carrega um sobrenome conhecido no basquete catarinense. Sobrinha de Dóris Castro, uma das figuras mais emblemáticas da arbitragem de Santa Catarina, ela cresceu dentro dos ginásios e acompanhou competições desde criança. Nunca imaginou, porém, que um dia estaria à frente de um clube.

A relação com o esporte começou acompanhando a tia. Primeiro como torcedora e espectadora, depois como motorista e braço direito, quando Dóris foi diagnosticada com câncer. Com o tempo, Priscilla assumiu as tarefas administrativas da Liga Norte. Após o falecimento de Dóris, em junho de 2021, assumiu a presidência da entidade.

Cinco anos depois, está diante de um desafio ainda maior: fazer renascer o Basquete Joinville, clube histórico que passou por um período de paralisação. O convite veio quase por acaso, após um All-Star Game que reuniu cerca de 1.500 pessoas e centenas de crianças no Centreventos Cau Hansen.

Enquanto reconstrói um time, Priscilla também reconstrói a própria vida. Há um ano ela também foi vítima de violência doméstica e quase perdeu a vida. Hoje, conta com medida protetiva e botão do pânico no celular, mas decidiu expor sua história por acreditar que sua trajetória pode encorajar outras mulheres.

Nesta conversa, ela fala sobre a memória de Dóris, a retomada do Basquete Joinville, o machismo na gestão esportiva, a violência que superou e o futuro que projeta para a modalidade na cidade.

“Eu sempre vivi no meio do basquete”

Sua relação com o basquete começou muito antes de você imaginar que um dia estaria à frente de um clube. Como esse esporte entrou na sua vida?

“O basquete veio por causa da minha tia Dóris. Na verdade, minha família sempre foi do esporte. Fiz natação até os 15 anos e fui atleta do Joinville Tênis Clube. Mas, quando eu tinha uns oito anos, fui fazer uma aula de basquete no Abel com a técnica Rose. Eu era a menor do time, a mascotinha, e as meninas pegavam muito no meu pé. Aí eu falei que não queria mais.

Minha tia virou mesária em 1985 e passei a acompanhá-la nos jogos desde pequena. Minhas maiores recordações eram do Abel Schulz e do Ivan Rodrigues, depois veio o SESI, o Whirpool, a Embraco. Por conta da minha tia e por morarmos perto do Abel Schulz, eu vivia dentro do ginásio.

Priscilla Castro na infância
Arquivo pessoal de Priscilla Castro

Em 2017, quando ela descobriu o câncer, passei a acompanhá-la ainda mais. Ela era mesária internacional e já era presidente da Liga Norte. Quando não podia dirigir, eu virava a motorista dela. Larguei toda a minha vida para ficar em função da minha tia.

Quando ela faleceu, em junho de 2021, eu já fazia muita coisa administrativa da Liga Norte para ela. E aí o Fábio Deschamps, que era presidente da Federação, falou que eu era a pessoa ideal para seguir até o final daquele ano. Assumi de junho a novembro, quando teve a eleição.”

“Eu não sou a minha tia”

Priscilla Castro e Dóris Castro
Arquivo pessoal de Priscilla Castro

Assumir a Liga Norte significou também carregar o legado da Dóris. Como foi construir o seu próprio espaço?

“Eu dei continuidade ao legado da minha tia, só que, como eu sempre falei, eu não sou a minha tia. Minha tia era muito respeitada. Tinha 30 anos de Educação Física, era a professora Dóris que todo mundo no Brasil conhecia e respeitava. Eu sigo o legado dela, mas tenho que conquistar o meu espaço. Mesmo sendo sobrinha da Dóris, sempre tentei evitar usufruir disso para chegar a algum lugar ou conquistar alguma coisa.

Eu demorava muito para dizer: “Eu sou a sobrinha da Dóris”. Não. Eu sou a Priscilla, presidente da Liga Norte. Mas não nego que, às vezes, quando a gente sente uma certa dificuldade, tem que falar que é sobrinha dela. Aí parece que a conversa muda.

A Liga Norte caminhou nesses cinco anos. Não tanto quanto na época dela, principalmente por questões financeiras, mas continuo mantendo o basquete ativo aqui em Joinville.”

“Eu não sou a minha tia. Sigo o legado dela, mas tenho que conquistar o meu espaço.”

Equipe da Liga Norte de Basketball
Arquivo pessoal de Priscilla Castro

“O meu foco sempre foi nas crianças”

Em que momento surgiu a ideia do All-Star Game e como isso movimentou a cidade?

“Desde 2024 eu tinha um desejo, porque estava sempre no ginásio com a base e via que a gente ia para as competições de sub-12, 13, 15 e só via os pais na arquibancada. Não tinha mais aquela emoção de torcida. Eu queria fazer alguma coisa para resgatar o basquete que eu vivi na arquibancada.

A Liga Norte já fazia o All-Star para o amador, mas pensei em chamar os ex-jogadores: o Thiagão, o Olívia, o Bambu… Chamei o Thiago Pinotti e o Renato Scholz para conversar e falei: “Vamos chamar o Ninja”. Naquela semana, ele tinha feito uma postagem falando do Basquete Joinville e eu pensei: se ele está falando, é um sinal. Eles começaram a mandar mensagem e todo mundo topou.

Corremos atrás de apoio, parceria da Prefeitura, da Secretaria de Esportes, ginásio… E fizemos em três meses, sem dinheiro. Deu umas 1.500 pessoas no Centreventos, fora as crianças. Mas o meu foco sempre foi nelas. A gente colocou cerca de 400 crianças dentro do ginásio. Falei que primeiro entrariam só as crianças, porque queria que elas tivessem acesso aos jogadores antes de começar o evento.

Tinha o projeto do Fernando, no bairro Boehmerwald. Ele tem 90 crianças só no Trentino e conseguiu levar 40 crianças de ônibus. A maioria das crianças que estavam ali era de escolinha da periferia, não de escola particular. A gente sabe qual é a realidade desses lugares. Para mim, aquilo tinha um significado muito maior do que simplesmente fazer um evento de basquete.”

Participantes do All-Star no Centreventos Cau Hansen
Arquivo pessoal de Priscilla Castro

“Eu não preciso entender de basquete. Preciso entender de gestão”

Como esse evento fez você chegar à presidência do clube e enfrentar os bastidores do esporte?

“Quando terminou o All-Star, o Alberto Bial me avisou que teria uma reunião na Câmara de Vereadores. Achei que seria um encontro formal, mas fui surpreendida com uma homenagem pelo fato de ter colocado tantas crianças no Centreventos. No meio do discurso, o Bial falou: “E aqui estamos com a futura presidente do Basquete Joinville, porque o clube vai voltar e é a Priscilla que vai trazer”. Eu pensei: “O que você está falando? Que Basquete Joinville? Ficou maluco?”

O clube tinha ficado parado em 2024. Montamos uma diretoria, abrimos edital, ninguém apareceu. E aí resolvi assumir. Comecei com uma conta de R$ 3 mil e vários desafios. Mostrar para as pessoas que eu não sou as outras gestões é o que mais me motiva, porque comecei do zero. As pessoas veem a gente viajando para campeonatos em São Paulo, Florianópolis, Balneário, Curitiba, e perguntam que patrocínio a gente tem. Patrocínio, Priscilla. Eu botei a minha cara e assumi o compromisso com os jogadores.

Junto com isso, enfrento o machismo. Ouvi de um homem esses tempos que eu não entendo de basquete. Fiquei muito pensativa sobre o que ele queria dizer com aquilo. Primeiro, preciso entender de pessoas. Sou gestora, não sou técnica. Meu papel é fazer o time andar, ir atrás de patrocínio e apoio. Nasci no basquete, não preciso entender de tática, preciso entender de gestão.

Muitas vezes quero falar alguma coisa e não sou ouvida, tenho que pedir para um homem falar a minha ideia. E por que nós, mulheres, temos que estar toda hora tentando conquistar a confiança do homem no meio profissional? Eu vou aos campeonatos, ouço anunciarem o presidente do time fulano, o diretor de fulano, e nunca me anunciam. E eu estou em todos os jogos.”

“Eu nasci no basquete. Não preciso entender de tática, preciso entender de gestão.”

“Eu fui quase uma vítima de feminicídio”

Com toda essa pressão, o que a impede de desistir?

“Meu maior objetivo em não desistir é que, faz um ano, eu fui quase uma vítima de feminicídio. Sofri por cinco anos abuso psicológico, abuso financeiro e, há um ano, quase fui assassinada. Tenho medida protetiva, tenho botão do pânico no celular e consegui virar a chave.

Tudo isso aconteceu enquanto eu estava organizando o All-Star. Imagina que eu tive que tentar virar a chave ali, à base de terapia e medicação. Quando comentei essa situação com uma pessoa do meio do basquete, ela me falou: “Pela tua coragem e força de assumir um negócio como mulher e lidar com homens, isso vai ser a tua virada de chave para ser um exemplo e contar a tua história”.

Quando criei coragem de denunciar e abrir o processo criminal que está correndo na Justiça, pensei no que quero hoje. Eu tenho os meus jogadores que sabem da minha história e me ajudam muito, têm orgulho de falar que têm uma presidente mulher.

Quando olho para a Priscilla de um ano atrás, vejo que fui muito corajosa. Tive uma rede de apoio fundamental na minha psiquiatra e na minha advogada. A Priscilla de um ano atrás teve coragem de fazer valer a pena o estar viva. E se o fato de estar viva é a minha maior vitória, estar viva também é o meu motivo para nunca desistir. Eu tive uma segunda chance. Eu podia não estar aqui hoje para contar essa história e para assumir o Basquete Joinville.”

“E se o fato de estar viva é a minha maior vitória, estar viva também é o meu motivo para nunca desistir.”

“Como a gente cresceu”

Existe uma contradição curiosa na sua história: você já chegou a jurar que nunca trabalharia com isso.

“Um dia tive uma discussão bem feia com a minha tia, antes de ela ficar doente, justamente por conta do basquete. Não gosto de ver impunidade, não gosto de injustiça. Eu estava saindo do apartamento dela, bati a porta e berrei: “É por isso que eu nunca vou trabalhar com essa merda!” E fui embora.

Meu irmão lembra disso até hoje. Quando reclamo de alguma coisa do basquete, ele fala: “Ué, não era você?” E olha onde vim parar. Primeiro assumi a Liga Norte e agora um time.

Se eu pudesse encontrar hoje aquela menina de sete anos lá na quadra do Abel, baixinha, loirinha, mirradinha, diria: “Nossa, como a gente cresceu”. A gente não cresceu em estatura, mas acho que aquela menina já sabia que, mesmo não sendo atleta profissional, o basquete continuaria no meu destino. Hoje, aquela garota é a primeira mulher a presidir um clube de basquete e campeã sul-brasileira de 3×3 dentro do próprio Abel. É muito emblemático.”

“Daqui a cinco anos, quero estar falando sobre o NBB”

Priscilla Castro com atletas do Basquete Joinville
Arquivo pessoal de Priscilla Castro

Depois de tudo, o que o clube representa para você e onde você quer chegar?

“Hoje o Basquete Joinville é a minha vida. É a minha história, onde realmente vou escrever a minha trajetória.

Daqui a cinco anos, quero estar falando sobre o NBB. Sobre os jogadores que fizeram parte desse movimento e sobre as crianças. Meu objetivo é resgatar os jovens que têm potencial. A gente não vende sonhos, mas pode mostrar oportunidades. Hoje tenho no time o Ítalo, que é sargento da Aeronáutica por causa do basquete.Quero que os adolescentes vejam que, mesmo se não se tornarem jogadores profissionais, podem sair de onde estão e chegar em algum lugar. Daqui a cinco anos, vamos estar falando do NBB e de como começamos a reestruturar a base da cidade. Joinville é uma cidade que respira basquete, e isso precisa, de fato, ser resgatado.”

Reconstruir um clube do zero, encarar a resistência de um ambiente majoritariamente masculino e lidar com os custos financeiros da gestão são tarefas gigantescas. Mas, para quem precisou juntar os próprios cacos e lutar pelo direito de continuar existindo, o desafio do Basquete Joinville está longe de ser um fardo, é um território de recomeço. Entre ginásios lotados, crianças com olhos brilhando na arquibancada e o sonho do NBB no horizonte, Priscilla Castro prova que a sua maior vitória já aconteceu. Ela está viva para ver o basquete renascer, e para renascer junto com ele.

Drika Evarini

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