Há noites que terminam quando o jogo acaba e há noites que parecem continuar por muito tempo depois do apito final. A noite de 27 de agosto de 2026 pertence a essa segunda categoria.
O Centreventos Cau Hansen estava lotado, pulsando, como em tantas outras manhãs, tardes e noites de futsal, mas havia alguma coisa diferente, uma energia diferente. Talvez porque todo mundo ali soubesse que estava prestes a testemunhar um momento histórico para clube, torcida, cidade e estado.

Na goleada do JEC Futsal sobre o Minas, o Tricolor levantou pela primeira vez a taça da Copa do Brasil e colocou o nome de Joinville e de Santa Catarina em uma página inédita da história da competição, que chegou à sua décima edição. Um número emblemático para uma conquista emblemática.
Eu já vivi muitos jogos, muitas decisões, muitas comemorações com esse time. E talvez seja justamente por acompanhar tão de perto que algumas conquistas são difíceis de explicar em palavras. Porque não era apenas uma taça, era tudo o que existia por trás dela.
Era o capitão que está em seu último ano de carreira, era quem passou meses tentando reconstruir o próprio corpo. Quem chegou neste ano e precisou esperar, mais uma vez, para voltar à quadra, quem enfrentou o ex-clube em uma final desse tamanho, era quem conquistou o primeiro título nacional. E era quem, silenciosamente, foi decisivo durante toda a campanha. E era também um treinador que, na véspera da decisão, viveu um dos momentos mais importantes da vida.
Uma despedida que ainda não terminou

Xuxa sabe muito bem o que significa vestir a camisa do JEC. Esta é a décima temporada dele no clube. É um dos jogadores com mais temporadas com a camisa tricolor, o capitão e um dos maiores símbolos de uma geração que ajudou a construir a história recente do futsal de Joinville.
Em 2017, ele estava lá quando o JEC conquistou a Liga Nacional e a Tríplice Coroa. Agora, no último ano como jogador, Xuxa ganhou mais uma taça para guardar. A Copa do Brasil foi inédita para o clube e para ele, que chegou a 21 títulos conquistados com o Tricolor.
E ainda existem alguns sonhos antes da despedida. Um deles é reconquistar a Liga Nacional. É por isso que a imagem de Xuxa levantando a taça tem tanto significado. Não é apenas mais um título, é um pedaço de uma história que está chegando aos últimos capítulos. Depois da festa, ele fez questão de lembrar que quem vê o jogo enxerga apenas uma pequena parte de tudo o que existe por trás daquela atuação. “A torcida vê 10%, que é o jogo”, disse.
O maior pedaço dessa conquista está nos treinos, na rotina, na entrega dia após dia, na cobrança, na união. E talvez essa seja uma das melhores explicações para entender por que o JEC Futsal chegou tão forte à final. Aliás, não só à final, às decisões que ainda tem pela frente.
O caminho de volta

Fernando também conhece o caminho até aqui. Depois de ir para a Arábia e romper um ligamento do joelho, o que o afastou por um longo período das quadras, ele voltou para o lugar que já conhecia. Voltou para onde é ídolo, para onde há identificação, sentimento. Voltou para casa. E voltou a ser protagonista.
Artilheiro do JEC Futsal na temporada, um dos pilares da equipe e um dos jogadores que carregam a responsabilidade ofensiva do time, Fernando agora tem mais uma conquista para colocar na história. E ela veio ao lado de companheiros que também sabem o que significa recomeçar.

Henrique rompeu o tendão de Aquiles em setembro do ano passado, quando retornava de outra lesão. Um baque gigante. Foram meses de recuperação até voltar às quadras. Neste ano, reassumiu seu espaço e sua liderança no grupo e, na final em casa, marcou.
É difícil não enxergar simbolismo nisso. Depois de tanto tempo trabalhando para voltar a fazer aquilo que ama e que parecia tão simples e natural para ele, Henrique estava ali, em uma final nacional, colocando a bola na rede.
E tem mais gente que sabe o que é resiliência e que sabe como ser protagonista. Luisinho esperou e voltou na hora certa. A história do camisa 7 parece ter sido escrita para aquela noite.
Primeiro ano de camisa tricolor e uma lesão no tornozelo que o tirou da Supercopa, a primeira competição importante da temporada. Quando voltou, começou a voar. Então, veio outra lesão, desta vez no ligamento colateral do joelho.
Mais uma pausa, mais uma recuperação, mais espera. Até que o retorno veio justamente na decisão da Copa do Brasil. E com a família no Centreventos Cau Hansen, foi ele quem abriu o caminho da conquista. O primeiro gol da goleada foi dele.
Depois de duas lesões e duas interrupções, Luisinho voltou em uma decisão única e transformou meses de espera em um dos momentos mais bonitos da conquista.

A lei do ex

Pinheiro viveu uma situação diferente. Em um ano, vestiu a camisa do Minas. No outro, a tricolor. E quis o destino que, na decisão do título inédito, o adversário fosse bem conhecido.
O jovem fixo não apenas enfrentou o antigo time, como também marcou na decisão. A lei que nunca falha. Uma maneira bastante simbólica e emblemática de começar a escrever sua própria história com a camisa tricolor.
O primeiro título nacional de Dieguinho

Uma história que emociona é a de Dieguinho, especialmente por ser escrita a muitas mãos, mãos que apoiam. Enquanto a quadra era tomada por jogadores, comissão técnica e torcedores, havia uma família assistindo a tudo aquilo com um sentimento difícil de medir.
Elizangela e Edilson estavam no Centreventos depois de uma longa viagem de Brasília a Joinville. Os pais acompanharam de perto o filho conquistar o primeiro título nacional da carreira e eles sabem o quanto aquele momento custou.
Dieguinho veio de uma família humilde e viveu dificuldades. Naquela noite especial para tanta gente, os pais estavam ali. E ele sabia exatamente para quem aquela taça também pertencia. “Esse título aqui não é meu. É deles”, disse. Não era uma frase bonita para uma entrevista, era a verdade.
Ele também lembrou da avó, que desde pequeno dizia que queria vê-lo na televisão, ganhando um título. Ela não pôde estar fisicamente no Centreventos, mas, para ele, estava lá.
E eu confesso que é difícil ouvir uma história dessas e não olhar para uma conquista esportiva de outra maneira porque, no fim, o título nunca é só do atleta. É de quem levou para o treino, de quem acreditou quando ninguém mais acreditava, de quem deu puxão de orelha, de quem ficou acordado, de quem fez sacrifícios. É da família.
O jogador que faz tudo parecer simples

Pedro Rei talvez seja o exemplo mais claro de que protagonismo não é sinônimo de barulho. Ele foi o artilheiro não só do JEC na Copa do Brasil, como de toda a competição, com 10 gols. Além disso, segue na briga acirrada pela artilharia da temporada com Fernando. Sem contar as assistências. Ele faz muito e faz com uma naturalidade que às vezes esconde o tamanho do que está fazendo.
Na decisão, também estava ali, entre os protagonistas. Depois de uma campanha em que o JEC marcou 56 gols, contando a prorrogação, e sofreu apenas 13, Pedro resumiu aquilo que talvez seja a essência de todo o trabalho. “As goleadas podem dar a impressão de que tudo foi fácil, mas não foi”, destacou.
Existe um trabalho diário pesado por trás de cada resultado e existe também uma torcida que transforma o Centreventos em algo difícil de explicar para quem nunca viveu. E o “king” falou da torcida com um arrepio nos braços que levantaram o troféu de artilheiro.
Luisinho também falou que, quando o Centreventos está cheio, “é difícil ganhar da gente”, e eu entendo.
Acompanhar esse time de perto é também aprender a reconhecer aquele momento exato em que o Centreventos muda. Da calmaria dos treinos que têm o silêncio na arquibancada vazia até quando a torcida canta, pula, empurra e transforma cada gol em uma explosão coletiva.
Nessas horas, já não parece que são apenas jogadores dentro da quadra. É Joinville jogando junto. Afinal, Joinville é sentimento.
Davi, Maria Ísis e uma semana que jamais será esquecida

E Davi Mendonça. Talvez nenhum personagem tenha chegado àquela final carregando tantas emoções ao mesmo tempo. Na véspera da decisão, nasceu Maria Ísis, sua filha, tão esperada, tão desejada, tão colocada em oração.
E, poucas horas depois de viver o nascimento da filha, ele estava no Centreventos para disputar mais uma final nacional. Depois de conquistar a Taça Brasil com o Traipu, era hora de conquistar a Copa do Brasil com o JEC Futsal.
Quando o jogo terminou, campeão, a primeira coisa que queria fazer era voltar para o hospital, ficar ao lado da esposa e aproveitar a noite com as “duas princesas”, como fez questão de dizer.
Davi fala de futsal, mas fala principalmente de fé. “Em 2018, vivi um momento delicado e cheguei a questionar se continuaria no futsal. A misericórdia de Jesus na minha vida é algo surreal”, disse.
Para quem conhece Davi, não é novidade ouvir a palavra fé. Ela está presente no dia a dia, nos treinamentos, nas conversas com os jogadores, na maneira como ele enxerga competição, trabalho, entrega e o esporte. E depois de uma conquista como essa, talvez o mais bonito seja perceber que, para ele, o resultado não começa e termina no placar.
Começa naquilo que cada um entrega diariamente, como ele diz: “fazer 100% todos os dias”. Davi fez questão de dividir o mérito com os jogadores e falou muito sobre humildade, ego e atletas que se doam e ajudam uns aos outros.
Uma das citações do treinador foi o experiente Robinho. Aos 43 anos, o camisa 10 está afastado das quadras após uma fratura no tornozelo. Mas isso não o impede de continuar liderando. Ele segue indo aos treinos para orientar e ajudar os companheiros. “Esses são os verdadeiros campeões”, disse.
Talvez seja justamente sobre isso.
Uma taça para guardar

No fim daquela noite, o JEC tinha seis gols no placar, uma festa nas arquibancadas e uma taça inédita nas mãos. Mas eu prefiro pensar que o que ficou não cabe em fotos ou vídeos.
Ficou o último ano de Xuxa. Ficou a retomada da história de conquistas de Fernando em casa. Ficou a recuperação de Henrique. Ficou a espera e a resiliência de Luisinho. Ficou Pinheiro marcando contra o ex-clube. Ficou Dieguinho abraçando os pais depois do primeiro título nacional. Ficou Pedro Rei, silencioso e decisivo. Ficou Davi, campeão dentro e fora de quadra. Ficou Maria Ísis chegando ao mundo na véspera de uma noite que o pai jamais vai esquecer. Como diz o hino, ela já nasceu campeã.
E ficou uma torcida que fez e faz o Centreventos pulsar. Sempre.
Eu já vi esse time ganhar, perder, recomeçar, sofrer e comemorar. Já acompanhei muitos capítulos da história do JEC Futsal com lágrimas nos olhos, tristeza e alegria. Mas algumas noites são diferentes. Algumas a gente não apenas cobre como profissional, a gente vive.
E aquela noite de 27 de agosto de 2026 foi uma delas.
Para quem estava naquele Centreventos Cau Hansen, é uma memória que vai permanecer por muito tempo depois da festa, porque naquela noite, diante de uma arquibancada inteira em preto, branco e vermelho, o JEC Futsal não ganhou apenas uma taça. O JEC Futsal escreveu história.
Fonte: JEC Futsal e CBFS
